Tráfico de animais silvestres e caça ilegal desafiam a conservação no Amazonas, aponta estudo inédito

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Pesquisa científica mapeou as principais rotas do comércio ilegal de fauna na Amazônia brasileira e identificou a região da tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru como uma das áreas mais vulneráveis.

O tráfico de animais silvestres e o consumo de carne de caça continuam a representar um dos maiores desafios socioambientais na Amazônia brasileira. Uma revisão científica publicada recentemente na revista “Human Ecology” mapeou de maneira inédita os padrões, vetores e as principais rotas da exploração ilegal de fauna na região. O levantamento reuniu dezenas de pesquisas para detalhar como a pressão humana afeta o bioma, destacando que o estado do Amazonas ocupa uma posição central tanto pela sua imensa relevância para a conservação global quanto pela vulnerabilidade acentuada em suas vastas áreas de fronteira internacional.

De acordo com os pesquisadores, a exploração ilegal da fauna amazônica está relacionada principalmente a quatro finalidades: consumo alimentar, especialmente de carne de caça; usos mágico-religiosos; práticas medicinais; e colecionismo de animais para criação como animais de estimação.

O estudo aponta que a dinâmica do tráfico na Amazônia apresenta características diferentes das observadas em outras regiões do país. Enquanto em determinados locais a exploração ilegal está mais concentrada na captura de aves ornamentais destinadas ao cativeiro, no bioma amazônico a demanda pelo consumo de animais tem papel predominante, especialmente envolvendo mamíferos de médio e grande porte, répteis e peixes.

Espécie resgatada de Gavião Pedrês — Foto: Moisés Henrique/Ipaam

Amazonas concentra pressão sobre espécies da fauna silvestre

No Amazonas, o consumo de animais silvestres está associado a hábitos alimentares, tradições e contextos culturais de diferentes comunidades. Entre as espécies frequentemente comercializadas em mercados públicos e feiras da região estão mamíferos como paca, anta e queixada, além de répteis e quelônios, como jacaré-açu, tartaruga-da-amazônia e tracajá.

O comércio de peixes também aparece entre as atividades que exercem pressão sobre a fauna regional. Algumas espécies ornamentais e de corte percorrem rotas internacionais que partem de rios amazonenses em direção a mercados de diferentes países.

Um dos dados que chama a atenção na pesquisa é que aproximadamente 25,5% das espécies identificadas nos comércios ilegais analisados constam nas listas oficiais de espécies ameaçadas de extinção do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

Os pesquisadores destacam que peixes e mamíferos de grande porte estão entre os grupos mais vulneráveis à pressão provocada pela caça e pela captura sem controle. A exploração dessas espécies pode comprometer populações naturais e provocar desequilíbrios nos ecossistemas amazônicos.

Tráfico de animais silvestres: tríplice fronteira concentra rotas de circulação

A pesquisa identifica o Amazonas como parte de uma importante área de circulação e escoamento de animais silvestres e seus subprodutos. Entre os pontos de maior preocupação está a região da tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru, considerada um corredor ativo para o transporte e a comercialização de fauna.

Tucano-de-papo-branco, ave recuperada e devolvida a natureza – Foto/Ibama

Segundo os autores, a fiscalização nessa área enfrenta dificuldades devido à extensão territorial da bacia amazônica, às características geográficas da região e às diferenças entre as legislações ambientais dos países vizinhos. Esses fatores dificultam a integração das ações de controle e o acompanhamento das rotas utilizadas pelo comércio clandestino.

Outro aspecto identificado pelo levantamento é a influência das mudanças sazonais dos rios sobre a exploração da fauna. Durante o período de cheia, a comercialização de carne de caça tende a aumentar, em razão da menor disponibilidade ou da maior dificuldade de acesso à pesca tradicional.

Já na estação de seca, a redução do nível dos rios facilita a captura de jacarés e a localização de áreas de desova e coleta de quelônios nas praias fluviais. Com isso, determinadas populações de animais ficam temporariamente mais expostas à exploração.

Comércio ilegal avança para redes sociais e aplicativos

Além das dificuldades geográficas, a fiscalização enfrenta obstáculos relacionados à falta de estrutura e de recursos humanos para monitorar rios, portos, aeroportos e feiras livres. A dimensão territorial da Amazônia torna ainda mais complexa a identificação de atividades clandestinas e o acompanhamento dos deslocamentos de animais.

Os pesquisadores também chamam atenção para a expansão do comércio ilegal em ambientes digitais. Redes sociais, aplicativos de mensagens e outras plataformas virtuais passaram a ser utilizados para divulgar e negociar animais silvestres, ampliando os desafios de monitoramento para os órgãos ambientais e de segurança pública.

A migração dessas atividades para o ambiente virtual dificulta a identificação dos responsáveis e exige novas estratégias de investigação e cooperação entre instituições.

Estudo defende alternativas sustentáveis para combater a exploração da fauna

Como medida para enfrentar o problema, os autores ressaltam que o combate ao comércio ilegal de animais silvestres não deve depender exclusivamente de operações policiais e ações repressivas. A pesquisa recomenda políticas públicas que combinem fiscalização, educação ambiental direcionada e ampliação das oportunidades socioeconômicas para populações em situação de vulnerabilidade.

Outro caminho apontado é o fortalecimento de iniciativas comunitárias de manejo sustentável da fauna e dos recursos naturais. Nesse contexto, os pesquisadores citam experiências com o manejo do pirarucu como exemplo de que é possível conciliar a conservação da biodiversidade com a geração de renda para comunidades amazônicas.

A proposta é ampliar alternativas econômicas que reduzam a dependência de práticas ilegais de exploração da fauna, respeitando os conhecimentos e as características das populações locais.

O levantamento reforça que a proteção da biodiversidade amazônica depende de ações integradas entre governos, comunidades e instituições de fiscalização, especialmente nas regiões de fronteira, onde a circulação de animais e produtos de origem silvestre representa um desafio que ultrapassa os limites nacionais.

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