Midterms acontecem em 3 de novembro e vão definir o controle do Congresso americano, podendo dificultar os planos do presidente Donald Trump e abrir caminho para investigações contra seu governo.
Os Estados Unidos se preparam para as eleições de meio de mandato, conhecidas como midterms, marcadas para 3 de novembro. A votação será decisiva para definir o equilíbrio de forças no Congresso americano e poderá influenciar diretamente os rumos do governo do presidente Donald Trump, cujo segundo mandato está previsto para terminar em janeiro de 2029.
Embora o nome do presidente não esteja nas cédulas eleitorais, o resultado será considerado uma avaliação do eleitorado sobre sua administração. A disputa também poderá determinar o nível de liberdade que Trump terá para aprovar projetos, implementar políticas e dar continuidade à sua agenda nos próximos dois anos.
O que são as eleições de meio de mandato nos EUA?
As chamadas midterms são eleições realizadas a cada dois anos nos Estados Unidos. Como o mandato presidencial tem duração de quatro anos, a votação que ocorre na metade desse período recebe o nome de eleição de meio de mandato.
Nesse processo, os americanos escolhem representantes para as duas casas do Congresso: a Câmara dos Representantes e o Senado. Uma das principais atribuições do Congresso é elaborar, discutir e aprovar leis federais, que têm validade em todo o território americano. Por isso, o controle dessas instituições é fundamental para determinar a capacidade de articulação política do presidente.
O resultado definirá se os republicanos, partido de Trump, continuarão comandando o Legislativo ou se os democratas, atualmente na oposição, conseguirão conquistar espaço e assumir o controle de uma ou das duas casas.
Quais cargos serão disputados nas eleições de 3 de novembro?
A votação prevê a renovação de todas as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes, cujos integrantes cumprem mandatos de dois anos. A Câmara, considerada a casa baixa do Congresso, é um dos principais espaços de apresentação, discussão e votação de propostas legislativas.

No Senado, 35 das 100 cadeiras estarão em disputa. Diferentemente dos deputados, os senadores possuem mandatos de seis anos. Entre suas atribuições está analisar e aprovar ou rejeitar projetos encaminhados pela Câmara.
Além das disputas federais, eleitores de diversos estados também escolherão representantes estaduais. Entre as eleições para governador que despertam maior atenção estão as da Califórnia, Flórida, Geórgia e Michigan.
Economia, imigração e inteligência artificial dominam o debate
Entre os principais assuntos que influenciam a disputa está a economia. O custo de vida preocupa parte dos americanos, especialmente diante dos preços dos combustíveis, alimentos, moradia e serviços de saúde.
A inflação continua acima da meta estabelecida pelo Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos. Entre os fatores apontados no cenário econômico está a guerra iniciada pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã, em fevereiro. Os democratas também responsabilizam as tarifas comerciais impostas por Trump a diversos países pelo aumento dos preços de produtos e serviços no mercado americano.
A imigração é outro tema central da campanha. Os republicanos defendem que Trump cumpriu uma das principais promessas feitas durante a campanha presidencial de 2024 ao reforçar a segurança nas fronteiras e intensificar as operações contra a imigração ilegal.
A inteligência artificial (IA) também ganhou espaço nas discussões políticas. Parlamentares de diferentes partidos demonstram preocupação com o avanço da tecnologia e defendem a necessidade de estabelecer regras para o setor. Nesse ponto, há divergências em relação a Trump, que rejeita propostas legislativas para controlar o desenvolvimento da inteligência artificial.
O que está em jogo para republicanos e democratas?
Atualmente, o Partido Republicano controla as duas casas do Congresso, mas trabalha com maiorias relativamente estreitas.
Na Câmara dos Representantes, os republicanos possuem 218 cadeiras, número mínimo necessário para manter o controle, além do apoio de um parlamentar independente que vota com o partido. No Senado, a legenda conta com 53 das 100 cadeiras.
Para assumir o controle da Câmara, os democratas precisam conquistar a maioria dos assentos. Já no Senado, a disputa exige pelo menos 51 cadeiras democratas, considerando que o vice-presidente republicano tem o voto de desempate em caso de divisão de 50 a 50.
Caso os democratas conquistem uma das casas legislativas, terão condições de apresentar e impulsionar suas próprias propostas, além de dificultar a aprovação de projetos defendidos pelo governo.
Onde as disputas podem ser mais acirradas?
Historicamente, as eleições de meio de mandato costumam representar um desafio para o partido que ocupa a Casa Branca. Em muitos ciclos eleitorais, os eleitores utilizam a votação para demonstrar insatisfação com o presidente e sua administração.
Pesquisas recentes indicam queda na popularidade de Donald Trump. Segundo dados do site de pesquisas Silver Bulletin, o republicano iniciou seu segundo mandato com aprovação pouco acima de 50%.
No início de outubro, entretanto, o índice havia recuado para aproximadamente 37%, enquanto 61% dos entrevistados desaprovavam sua gestão. Apesar disso, nem todas as cadeiras estão igualmente ameaçadas. Algumas disputas são consideradas mais favoráveis aos republicanos, enquanto outras apresentam vantagem para os democratas.
A CBS News, parceira da BBC nos Estados Unidos, identificou dez disputas pelo Senado que merecem atenção, incluindo eleições em Iowa e New Hampshire. Na Câmara, 42 disputas são consideradas especialmente relevantes, com destaque para estados como Arizona e Ohio.
Outro fator que aumenta a imprevisibilidade é a discussão sobre a divisão dos distritos eleitorais. Republicanos tentaram modificar mapas eleitorais em determinados estados para ampliar suas vantagens, enquanto os democratas também adotaram estratégias semelhantes.
Como uma vitória democrata pode afetar o governo Trump?
As eleições de meio de mandato são consideradas um importante teste político para Trump antes do encerramento de seu segundo mandato. Se os democratas conquistarem a Câmara ou o Senado, o presidente poderá enfrentar dificuldades para aprovar projetos de lei e avançar com suas propostas no Congresso.
Mesmo diante de uma possível derrota legislativa, Trump ainda poderá recorrer às ordens executivas, instrumentos que permitem ao presidente estabelecer determinadas medidas sem depender da aprovação do Congresso, respeitados os limites constitucionais e legais.
Uma das consequências mais significativas de uma vitória democrata seria o fortalecimento da fiscalização sobre o Executivo. Com o controle de pelo menos uma das casas, os parlamentares da oposição poderiam utilizar comissões legislativas para investigar ações do governo, convocar funcionários públicos para prestar esclarecimentos e solicitar documentos oficiais.
Entre os assuntos que poderiam entrar na mira das investigações estão suspeitas de corrupção, a construção do novo salão de baile da Casa Branca e as estratégias utilizadas pelo Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE).
Também existe uma discussão dentro do Partido Democrata sobre a possibilidade de iniciar um processo de impeachment contra Trump. O procedimento representa um julgamento político, e não criminal, e depende da tramitação e dos quóruns constitucionais previstos.
Se conquistarem o Senado, os democratas também poderão dificultar a aprovação de indicações feitas pelo presidente para cargos importantes, incluindo nomeações de juízes e integrantes do governo. A possibilidade de influenciar futuras indicações para a Suprema Corte também está entre os pontos de atenção.
Por outro lado, caso os republicanos mantenham o controle das duas casas, Trump terá maior facilidade para negociar com o Congresso e dar continuidade aos projetos de sua administração.
O resultado das midterms pode antecipar a disputa presidencial de 2028?
Embora Donald Trump não seja candidato nas eleições de 3 de novembro, o resultado poderá oferecer sinais importantes sobre o cenário político americano para 2028.
O próprio presidente pediu que os eleitores considerassem a votação como uma forma de demonstrar apoio ao seu governo, mesmo sem seu nome aparecer nas cédulas. Independentemente de quem vencer, o desempenho dos partidos será analisado como um indicador da aprovação popular das políticas adotadas pela atual administração.
Trump, porém, não poderá disputar um terceiro mandato presidencial. A Constituição dos Estados Unidos estabelece o limite de dois mandatos para uma mesma pessoa na Presidência. Com isso, as eleições de meio de mandato também devem intensificar as especulações sobre quem poderá representar os republicanos na disputa presidencial de 2028 e qual nome será escolhido pelos democratas para enfrentar o candidato adversário.
Mais do que definir a composição do Congresso, as midterms poderão estabelecer os limites políticos do restante do governo Trump e influenciar diretamente a preparação dos partidos para a próxima eleição presidencial.
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