Super-ricos geram mais poluição que 3,5 bilhões de pessoas e lucram com desastres climáticos

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Relatório da Oxfam aponta desigualdade nas emissões de carbono, alerta para os impactos da crise climática sobre populações vulneráveis e identifica 217 empresas que lucram tanto com a poluição quanto com a reconstrução após desastres.

A concentração de riqueza também se reflete na responsabilidade pela crise climática. Segundo um relatório da Oxfam, os 0,1% mais ricos da população mundial, cerca de 8 milhões de pessoas, geram mais poluição por carbono do que os 3,5 bilhões de indivíduos mais pobres do planeta.

O estudo aponta que os super-ricos contribuem de maneira desproporcional para o aquecimento global, mas possuem mais recursos para se proteger de suas consequências. Enquanto isso, as populações em situação de vulnerabilidade enfrentam os impactos mais severos, como enchentes, incêndios, destruição de moradias e plantações, perda de renda e insegurança alimentar.

O levantamento foi divulgado antes da 31ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP31), que será realizada na Turquia, entre os dias 9 e 20 de novembro de 2026.

Super-ricos contribuem até 400 vezes mais para ondas de calor

De acordo com os dados reunidos pela Oxfam, uma pessoa pertencente ao grupo dos 0,1% mais ricos contribuiu quase 400 vezes mais para as atuais ondas de calor extremo do que alguém que integra os 50% mais pobres da população mundial.

O relatório também estima que apenas um ano de emissões de carbono dos 1% mais ricos poderá provocar 1,9 milhão de mortes adicionais relacionadas ao calor. Desse total, aproximadamente 78% devem ocorrer em países de renda baixa e média-baixa.

Essas nações, apesar de estarem entre as mais afetadas pelas consequências das mudanças climáticas, respondem por apenas 8% das emissões globais, segundo o levantamento.

Para Amitabh Behar, diretor executivo internacional da Oxfam, a crise climática não representa um desafio igualmente compartilhado pela humanidade.

“Aqueles que menos contribuíram para causá-la estão perdendo suas casas, suas colheitas e, cada vez mais, suas vidas”, afirmou o dirigente em nota.

População vulnerável enfrenta consequências mais graves

O estudo destaca a diferença entre as condições de vida dos grupos mais ricos e das populações que possuem menos recursos para enfrentar eventos climáticos extremos.

Enquanto comunidades vulneráveis perdem casas, plantações e fontes de sustento durante enchentes, incêndios e ondas de calor, os super-ricos conseguem investir em mecanismos particulares de proteção.

Entre os exemplos citados pela Oxfam estão bunkers subterrâneos de alta tecnologia, equipes privadas de combate a incêndios e seguros particulares.

Além da capacidade de proteção, o relatório aponta que parte dos grupos econômicos mais ricos também obtém lucros com as consequências da poluição e com as atividades de recuperação após desastres.

“Enquanto isso, os super-ricos podem comprar sua segurança […] além de lucrarem ativamente com as consequências da poluição que geram”, acrescentou Behar.

Emissões dos mais ricos podem causar US$ 53 trilhões em prejuízos

Outro dado apresentado pela organização diz respeito aos impactos econômicos da concentração de emissões de carbono.

Segundo a análise, as emissões dos 1% mais ricos poderão provocar quase US$ 53 trilhões em danos econômicos até 2050.

O relatório também estima que até 1 bilhão de pessoas poderão ser deslocadas em razão da crise climática até esse período. A maior parte dos deslocamentos deverá ocorrer em países do chamado Sul Global, grupo que reúne principalmente nações em desenvolvimento da África, América Latina, Ásia e Oceania.

A Oxfam avalia que a desigualdade climática vai além da distribuição dos impactos ambientais e está relacionada à concentração de riqueza e às oportunidades de proteção diante dos desastres.

“Isso não é uma tragédia de destino compartilhado; é um crime de desigualdade extrema”, declarou o diretor da organização.

Empresas lucram com a poluição e a reconstrução após desastres

O relatório também alerta para o aproveitamento econômico das tragédias climáticas. Segundo a entidade, desastres ambientais têm sido utilizados para impulsionar políticas que podem aprofundar as desigualdades sociais.

Entre as práticas mencionadas estão a privatização de iniciativas de enfrentamento às mudanças climáticas e de serviços públicos, a apropriação de terras, a flexibilização de regulamentações e a concessão de benefícios fiscais aos super-ricos.

A organização chama atenção para empresas que conseguem obter ganhos em diferentes etapas da crise: desde atividades que contribuem para o aquecimento global até serviços de preparação, resposta, recuperação e reconstrução após desastres.

O novo índice Destruir e Reconstruir (Destroy & Rebuild Index), desenvolvido pela Oxfam, identificou 217 empresas que atuam simultaneamente em setores que impulsionam o colapso climático e em atividades relacionadas à preparação e à recuperação de áreas atingidas por eventos extremos.

“Os super-ricos estão incendiando o planeta e depois cobrando do resto de nós pelos extintores”, afirmou Behar.

O dirigente acrescentou que esses grupos lucram com a poluição, com os desastres e novamente com os processos de reconstrução.

Oxfam propõe taxação dos mais ricos e aumento do financiamento climático

Diante do cenário apresentado, a Oxfam defende medidas para reduzir a concentração de responsabilidades pela crise climática e ampliar a proteção das populações mais vulneráveis.

Entre as recomendações está a cobrança de uma contribuição maior dos grandes poluidores, tanto para reduzir as emissões de carbono quanto para financiar ações de enfrentamento às mudanças climáticas.

A organização propõe:

  • Tributação sobre riqueza e renda: aumentar os impostos sobre grandes fortunas e rendimentos elevados. 
  • Taxação de combustíveis fósseis: ampliar a tributação sobre empresas do setor responsável por parte significativa das emissões. 
  • Impostos sobre bens de luxo poluentes: aplicar cobranças punitivas sobre produtos e serviços de alta emissão de carbono, como jatos particulares. 
  • Mais financiamento climático: ampliar os recursos destinados aos países do Sul Global, priorizando investimentos públicos e doações em vez de empréstimos que aumentem o endividamento. 
  • Investimento em adaptação: triplicar os recursos destinados à adaptação climática até 2035. 
  • Fortalecimento dos serviços públicos: garantir infraestrutura mais resistente aos eventos extremos e ampliar a capacidade de atendimento à população. 

A entidade também recomenda medidas para limitar o poder de empresas privadas em áreas estratégicas durante crises, como atendimento emergencial, reconstrução de comunidades e abastecimento de alimentos.

A proposta é reduzir a possibilidade de que tragédias ambientais sejam transformadas em oportunidades de lucro, garantindo que os recursos destinados à recuperação beneficiem principalmente as populações atingidas.

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